De toda água doce

​Os critérios lógicos e visuais com os quais os artistas elegem a partir do léxico que manipulam são, por vezes, discutíveis, daí a não explicação dos caminhos a serem seguidos. Uma certa cegueira intencional. É mesmo desinteressante que o texto curatorial ou qualquer outra fala explicite tudo. O que se faz é somar, problematizar os trabalhos à luz de uma certa ordem de conceitos, sem que também sejam clichês.

Tenho visto curadorias consagradas com textos muito bem escritos, porém a base conceitual faz “ajustes” adequando o artista aos conceitos aceitos no meio. Fica o correto elegante, na frequência das leituras mais renomadas, sem, contudo, ir ao âmago do que é contraditório, pueril e selvagem na construção daquele trabalho ou trajetória.

Picolés feitos com água suja dos arredores de Taiwan

Essa querela da transparência é análoga à pureza em tempos heliooiticiquianos, para uns uma besteira, para outros ainda um persistente delírio. Atualmente, uma certa água barrosa compõe a visualidade das curadorias, não por impurezas, nem detritos, nem lixo. São inapreensíveis temáticas metafísicas ao lado de políticas afirmativas com direção segura. É o que é.

BEUYS

Artistas que trabalham com símbolos religiosos somente são considerados aceitos se trazem uma política de afirmação da identidade. Caso queiram movimentar outros círculos, não há aceitação. O mercado que vive do capitalismo elege um discurso de inclusão para vender mais e apaziguar as consciências, engolindo o manifesto como sempre, numa camiseta ou uma caneta.

Temas que todo mundo já sabe, nada de novidade, para manter o status quo. Não se pode fazer uma analogia de uma água que não se dá a ver nesse sentido. Mesmo uma curadoria mais próxima per si ao material da arte alia técnica e tecnologia. A questão não é fugir do mundo, a questão é rasgar o véu da ideologia, lidar com o que não é apreensível de forma mais cara a cara.

ALINE REIS | 23 janeiro 2024