
Fusão de naturezas
Há palavras que não estão em moda, porque carregam um lastro de significação de um tempo que se quer esquecer, que se pretende “ultrapassado” (com mil aspas). As palavras são como cores nas mãos daquele que escrevem. Há cores que não devem ser usadas, há toda uma ciência do artesão e do artista na confecção de suas peças e trabalhos de arte. A distinção entre eles é hierárquica e pode ser dissolvida pelos falsos deuses do mercado.
Funde-se composições com tendências distintas, discursos solapados e a maioria não entende. O Google não dá essas diferenças teóricas significativas. O mundo dos teóricos é feito dessa fusão de “naturezas” e o artista contemporâneo também, no sentido que embaralhar e desconstruir a geometria ou a figura aponta para uma intencionalidade que diz muito sobre em qual ponto se quer alcançar.

Num mundo de estima por líquidos, avesso aos sólidos, aos valores eternos, como diz minha filha Lia, a geração do século XXI, já está toda embebida no niilismo, camada que para “tirar” quase tira tudo, nada mais propício que escrever sobre a maneira como identificam arte contemporânea e tempo histórico. Diz um coach de arte contemporânea que a arte contemporânea é a arte do nosso tempo. Não deixa de ser verdadeira a frase afirmativa, até porque legitima que toda arte foi em algum momento contemporânea e deixa de ser, embora o lastro de tempo impregnado nela é capaz de deixar para fora a casca histórica.
Essas tautologias também são ricas de um tempo de tautologias. Um mesmo fica sempre “colado” na fusão das naturezas, embora as raspas e os restos sejam minuciosamente colecionados pelos arqueólogos, nós, artistas, levamos para outro extremo: fixa um tempo, manipula-se os desdobramentos, segura o caldo grosso (hoje) do não ser e ali estamos fazendo a arte contemporânea dos dias de hoje. Não é necessariamente uma fórmula! É uma condição contemporânea já dada que faz com que já partamos de alguns critérios lógicos e visuais.
ALINE REIS | 16 janeiro 2024


