
Exposição “Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer”, de Diogo Nógue, propõe uma arte afrocentrada a partir da Sankofa, e práticas de cuidado como homem negro*
_Mostra reúne pinturas, desenhos e instalação no Pavilhão da Cultura Afro-Brasileira Zumbi dos Palmares, em Suzano, e integra a programação do projeto Agita Palmares_
O artista, escritor e pesquisador Diogo Nógue apresenta a exposição Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer, com abertura no domingo, 2 de agosto, às 14h, no Pavilhão da Cultura Afro-Brasileira Zumbi dos Palmares, em Suzano. A mostra permanece em cartaz até 31 de agosto, com visitação gratuita.
A exposição reúne trabalhos desenvolvidos a partir de uma investigação sobre Ser Artista negro, afrocentricidade, cura e a construção de outras formas de existência para pessoas negras. A mostra apresenta a série Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer, além de pinturas da série Quem Matou Basquiat?, desenhos de Desconversando o Eu e Em-passe-de-negação, que investigam as relações entre corpo e subjetividade do homem negro, e a instalação da série Macumbações, realizada com materiais provenientes de lojas de artigos afro-religiosos de Suzano.
A série que dá nome à exposição parte da própria história dos herbários e de sua relação com os sistemas de classificação e catalogação. A palavra herbário tem origem no latim herbarium e está associada à reunião, preservação e transmissão de conhecimentos sobre plantas e seus usos. Ao longo da história, diferentes culturas desenvolveram maneiras próprias de observar e representar a flora, com a expansão colonial europeia, entretanto, a catalogação da natureza passou também a integrar processos de exploração, apropriação e domínio de territórios, corpos e conhecimentos.
É a partir desse conflito que Diogo Nógue desenvolve a série de desenhos feitos com marcadores sobre tecido, utilizando da estrutura estética e simbólica do herbário e as subverte por meio do desenho, escritos manuais e micro-contos que rodeiam plantas utilizadas em banhos, chás e práticas de cuidado.
O pano de prato, associado ao trabalho doméstico e aos labores historicamente invisibilizados das mulheres, torna-se, na obra, um arquivo de afetos e saberes. Os panos foram confeccionados ou trocados por sua mãe, Regina, e sua tia, Ana Nísia, e carregam seus crochês, marcas de uso, desgaste e memória. As plantas desenhadas remetem a conhecimentos transmitidos por seus avós, especialmente por sua avó Rosa, que utilizava a flora do quintal para cuidar da família. O artista articula essa materialidade como crítica aos sistemas de classificação que transformaram conhecimentos e culturas não hegemônicas em objetos de apropriação.
“Durante minha pesquisa de mestrado, encontrei o conceito de ‘arte da afrodiáspora’ e a possibilidade de pensar a criação como uma prática de cura coletiva negra e de reencantamento das energias ancestrais. A partir do estudo da produção de artistas negros contemporâneos e de diferentes gerações do continente africano e nas américas, compreendo que nós, homens negros, em nossas diversas configurações de masculinidades, devemos assumir a responsabilidade por nossas vidas e pelas comunidades das quais fazemos parte”, afirma Diogo Nógue.
Para o artista, esse percurso implica recusar o modelo do “homem branco ocidental” como medida universal de humanidade e buscar nos ancestrais e nas comunidades negras, outras validadores de existência. “Nossa libertação se realiza pela afirmação do direito de existir como somos e pela construção de formas de liberdade comprometidas com a emancipação de todas as pessoas negras, olhar para as mulheres negras e suas formas de cuidado, talvez seja um caminho.”, completa.
Os trabalhos da exposição partem dos princípios de Sankofa, provérbio de origem Akan associado à ideia de retornar para buscar aquilo que foi deixado para trás, e Ubuntu, conceito presente entre povos do sul do continente africano (Zulo e xhosa) e popularmente difundido pela formulação “eu sou porque nós somos”. A partir desses princípios, o artista pensa uma produção afrocentrada, utilizando a criação como parte de uma rede de relações que envolve os que vieram antes, a natureza, a comunidade e as futuras gerações.Sendo a liberdade o reflexo de uma responsabilidade ontológica: um compromisso com a própria existência, com o coletivo e com o mundo que se deseja construir.
As palavras que dão título à exposição funcionam como ações disparadoras: Cuidar é zelar, proteger, cultivar e permanecer atento àquilo que ameaça a vida; Vingar é sobreviver, crescer e continuar, além de buscar a restituição de saberes, memórias, territórios e futuros que foram historicamente retirados; Refazer é reconstruir e reencontrar práticas de cura, gestos de proteção e sonhos que, mesmo interrompidos, podem ser retomados.
“Entre plantas, tecidos, desenhos, histórias, objetos e memórias, este Herbário se constitui como um espaço de escuta da vida e de reabertura de caminhos para os saberes. A partir do afeto, da responsabilidade com aqueles que vieram antes e da imaginação, cuidar, vingar e refazer tornam-se forças coletivas para imaginar e construir outras formas de relação conosco e com o mundo ao nosso redor”, conclui o artista.
O artista volta a expor na cidade após a mostra “Encanto: Artevivencia da Afro-diáspora” (2023) no Centro de Educação e Cultura Francisco Carlos Moriconii. Neste ínterim, Nógue participou da exposição “Mãos: 35 anos da Mão Afro-brasileira” no MAM/Museu Afro Brasil e foi premiado na 3° Bienal Brazil Black, no 54º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba e no 52° Salão Luiz-Sacilotto em Santo André.
A exposição é um convite do Agita Palmares, projeto artístico e cultural desenvolvido no Pavilhão Zumbi dos Palmares pela Associação Cultural e de Cidadania Beija-Flor, em parceria com a Secretaria da Cultura de Suzano, por meio de termo de colaboração firmado com a Prefeitura de Suzano. A iniciativa promove e difunde a cultura afro-brasileira em diferentes linguagens, fortalecendo o protagonismo de artistas, grupos e coletivos culturais negros e periféricos e ampliando o acesso gratuito à produção cultural.
*Serviço*
Exposição: Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer
Artista: Diogo Nógue
Abertura: domingo, 2 de agosto, às 14h
Visitação: até 31 de agosto
Local: Pavilhão da Cultura Afro-Brasileira Zumbi dos Palmares
Endereço: Av. Sen. Roberto Símonsen, 90 – Jardim Imperador, Suzano – SP
Entrada: gratuita
_Mostra reúne pinturas, desenhos e instalação no Pavilhão da Cultura Afro-Brasileira Zumbi dos Palmares, em Suzano, e integra a programação do projeto Agita Palmares_
O artista, escritor e pesquisador Diogo Nógue apresenta a exposição Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer, com abertura no domingo, 2 de agosto, às 14h, no Pavilhão da Cultura Afro-Brasileira Zumbi dos Palmares, em Suzano. A mostra permanece em cartaz até 31 de agosto, com visitação gratuita.
A exposição reúne trabalhos desenvolvidos a partir de uma investigação sobre Ser Artista negro, afrocentricidade, cura e a construção de outras formas de existência para pessoas negras. A mostra apresenta a série Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer, além de pinturas da série Quem Matou Basquiat?, desenhos de Desconversando o Eu e Em-passe-de-negação, que investigam as relações entre corpo e subjetividade do homem negro, e a instalação da série Macumbações, realizada com materiais provenientes de lojas de artigos afro-religiosos de Suzano.
A série que dá nome à exposição parte da própria história dos herbários e de sua relação com os sistemas de classificação e catalogação. A palavra herbário tem origem no latim herbarium e está associada à reunião, preservação e transmissão de conhecimentos sobre plantas e seus usos. Ao longo da história, diferentes culturas desenvolveram maneiras próprias de observar e representar a flora, com a expansão colonial europeia, entretanto, a catalogação da natureza passou também a integrar processos de exploração, apropriação e domínio de territórios, corpos e conhecimentos.
É a partir desse conflito que Diogo Nógue desenvolve a série de desenhos feitos com marcadores sobre tecido, utilizando da estrutura estética e simbólica do herbário e as subverte por meio do desenho, escritos manuais e micro-contos que rodeiam plantas utilizadas em banhos, chás e práticas de cuidado.
O pano de prato, associado ao trabalho doméstico e aos labores historicamente invisibilizados das mulheres, torna-se, na obra, um arquivo de afetos e saberes. Os panos foram confeccionados ou trocados por sua mãe, Regina, e sua tia, Ana Nísia, e carregam seus crochês, marcas de uso, desgaste e memória. As plantas desenhadas remetem a conhecimentos transmitidos por seus avós, especialmente por sua avó Rosa, que utilizava a flora do quintal para cuidar da família. O artista articula essa materialidade como crítica aos sistemas de classificação que transformaram conhecimentos e culturas não hegemônicas em objetos de apropriação.
“Durante minha pesquisa de mestrado, encontrei o conceito de ‘arte da afrodiáspora’ e a possibilidade de pensar a criação como uma prática de cura coletiva negra e de reencantamento das energias ancestrais. A partir do estudo da produção de artistas negros contemporâneos e de diferentes gerações do continente africano e nas américas, compreendo que nós, homens negros, em nossas diversas configurações de masculinidades, devemos assumir a responsabilidade por nossas vidas e pelas comunidades das quais fazemos parte”, afirma Diogo Nógue.
Para o artista, esse percurso implica recusar o modelo do “homem branco ocidental” como medida universal de humanidade e buscar nos ancestrais e nas comunidades negras, outras validadores de existência. “Nossa libertação se realiza pela afirmação do direito de existir como somos e pela construção de formas de liberdade comprometidas com a emancipação de todas as pessoas negras, olhar para as mulheres negras e suas formas de cuidado, talvez seja um caminho.”, completa.
Os trabalhos da exposição partem dos princípios de Sankofa, provérbio de origem Akan associado à ideia de retornar para buscar aquilo que foi deixado para trás, e Ubuntu, conceito presente entre povos do sul do continente africano (Zulo e xhosa) e popularmente difundido pela formulação “eu sou porque nós somos”. A partir desses princípios, o artista pensa uma produção afrocentrada, utilizando a criação como parte de uma rede de relações que envolve os que vieram antes, a natureza, a comunidade e as futuras gerações.Sendo a liberdade o reflexo de uma responsabilidade ontológica: um compromisso com a própria existência, com o coletivo e com o mundo que se deseja construir.
As palavras que dão título à exposição funcionam como ações disparadoras: Cuidar é zelar, proteger, cultivar e permanecer atento àquilo que ameaça a vida; Vingar é sobreviver, crescer e continuar, além de buscar a restituição de saberes, memórias, territórios e futuros que foram historicamente retirados; Refazer é reconstruir e reencontrar práticas de cura, gestos de proteção e sonhos que, mesmo interrompidos, podem ser retomados.
“Entre plantas, tecidos, desenhos, histórias, objetos e memórias, este Herbário se constitui como um espaço de escuta da vida e de reabertura de caminhos para os saberes. A partir do afeto, da responsabilidade com aqueles que vieram antes e da imaginação, cuidar, vingar e refazer tornam-se forças coletivas para imaginar e construir outras formas de relação conosco e com o mundo ao nosso redor”, conclui o artista.
O artista volta a expor na cidade após a mostra “Encanto: Artevivencia da Afro-diáspora” (2023) no Centro de Educação e Cultura Francisco Carlos Moriconii. Neste ínterim, Nógue participou da exposição “Mãos: 35 anos da Mão Afro-brasileira” no MAM/Museu Afro Brasil e foi premiado na 3° Bienal Brazil Black, no 54º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba e no 52° Salão Luiz-Sacilotto em Santo André.
A exposição é um convite do Agita Palmares, projeto artístico e cultural desenvolvido no Pavilhão Zumbi dos Palmares pela Associação Cultural e de Cidadania Beija-Flor, em parceria com a Secretaria da Cultura de Suzano, por meio de termo de colaboração firmado com a Prefeitura de Suzano. A iniciativa promove e difunde a cultura afro-brasileira em diferentes linguagens, fortalecendo o protagonismo de artistas, grupos e coletivos culturais negros e periféricos e ampliando o acesso gratuito à produção cultural.
*Serviço*
Exposição: Herbário do Cuidar, Vingar e Refazer
Artista: Diogo Nógue
Abertura: domingo, 2 de agosto, às 14h
Visitação: até 31 de agosto
Local: Pavilhão da Cultura Afro-Brasileira Zumbi dos Palmares
Endereço: Av. Sen. Roberto Símonsen, 90 – Jardim Imperador, Suzano – SP
Entrada: gratuita


