Caminhos, não mapas

Jean-Luc Marion em uma entrevista disse: “(…) um grande filósofo é alguém que decidiu modificar um conjunto de conceitos a fim de enfrentar a questão e não extingui-la imediatamente”. Muitos filósofos são bombeiros: há um incêndio, eles correm para dentro dele para apagá-lo. Em filosofia, eu digo aos meus estudantes: se você ler um livro que você entende bem, largue-o. Você poderia ter escrito aquele livro. Se você lê um livro que não entende, mas acha que há algo ali, mantenha-o aberto. Leia apenas livros que você não entende”. (https://www.ihu.unisinos.br/624947-ainda-nao-somos-cristaos-entrevista-%20com-jean-luc-marion )

Daniel Buren

Num mundo em que a linguagem precisa ser explicitada até a nudez, essa ideia é inconcebível. Aliás, nem só a linguagem, como tudo é um produto que deve passar em segundos pela tela de nossa memória, a compreensão “se faz por baixo”, preconceituosamente, pelo senso comum. O que existe? Contemplar todas as opiniões democraticamente, apaziguando as “subjetividades” que devem ser assistidas, só produz mais confusão teórica, pois nem todas as interpretações, sujeições, apostos e afirmações são essenciais ou dão o acento correto ao signo exposto.

Daniel Lannes

Podemos caminhar em floresta fechada de pouca visibilidade para ter o prazer e o espanto de buscar um lugar mais iluminado, uma clareira, uma saída que nos diz muito mais sobre o lugar aonde queremos chegar. O mapa já cartografado e sem nenhuma novidade, tem em sua positividade o direcionamento de arrancar o corpo do momento no qual a surpresa o jogará para fora do seu conforto e irá tomar conta de tudo.

Alguns artistas falam sobre isso, não dar tudo de cara, não fornecer tudo no texto crítico ou na expografia, como se a imagem fosse meramente uma ilustração, corroborando no entendimento do texto ao lado. Esse “não entender” significa dizer que continuamos a andar no terreno da filosofia ou da arte. Que nunca acabe!

ALINE REIS | 2 janeiro 2024