Amar é cuidar

            “Posso perceber por que muitos artistas visuais não gostam da presença de palavras em obras de arte. Eles sentem que palavras sujam a água clara que refletiu o céu. Isso perturba o prazer da imagem silenciosa, a liberdade da história, a beleza da forma sem nome. Quero nomear as dores. Quero manter os nomes. Sei que nem imagens nem palavras podem escapar da embriaguez e da saudade causadas pelo mundo em movimento. Palavras e imagens bebem do mesmo vinho. Não pureza a proteger.” (Marlene Dumas) ¹

            Lendo um livro muito interessante sobre arte contemporânea me deparei com essa citação que vem de encontro às discussões que venho travando no blog sobre a relação da literatura com as artes visuais. Só que em vez de assumir o ponto de vista do artista visual, aqui temos o murmúrio do literato sobre a desconfiança de colocar a palavra em meio ao trabalho de arte.

            Como no meu trabalho, eu uso a palavra como desenho e ainda no lastro de situar leituras, não como significante, mas como palheta mesma de cor, toda esse vai e vem me interessa. Na última curadoria com os trabalhos da poeta Regina Pouchain a tônica circunvizinhou linguística, poema processo, visualidade moderna e contemporânea nas etiquetas\coisas – dupla remessa de anteparos de vão da língua à linguagem, do significado ao sentido, do objeto à desmaterialização da arte no espaço expositivo. Junta a nova paixão – Jean Luc Marion – o cuidado, o amor, as decisões filo-teológicas na apreensão do mundo, na escolha dos próximos trabalhos e projetos, o liquidificador só range em meio as tantas cores que precisam entrar em uma nova palheta de um novo ano.

ALINE REIS | 9 janeiro 2024