




Com o tema “In the Presence of Absence” [Na presença da ausência], o Desert X AlUla 2024, localizado na Arábia Saudita, desafia a noção de desertos como “espaços vazios”, convidando 16 artistas de diversas nacionalidades para investigar ideias conceituais relacionadas ao invisível.
Entre os artistas, destacamos Karola Braga (São Caetano do Sul, 1988), a única artista brasileira presente, com a obra site-specific Sfumato, projetada para recriar a experiência sensorial olfativa da antiga Rota do Incenso, trilhada por comerciantes que passavam por AlUla em busca de madeira, especiarias, ervas e incensos, itens de luxo em épocas passadas.

KURA: Quais ideias, perguntas e processos motivaram a criação de Sfumato?
KAROLA: A Rota do Incenso é intrínseca à minha pesquisa. Madeiras, especiarias, ervas e incensos eram itens de luxo e requinte, extremamente valorizados por nossos antepassados, resultando no desenvolvimento de várias rotas comerciais centradas na busca incessante por esses ingredientes aromáticos, como é o caso da Rota do Incenso. As matérias-primas comercializadas eram empregadas em rituais religiosos, na produção de ervas medicinais para a confecção de medicamentos e na fabricação de perfumes. Ou seja, esses itens não eram apenas mercadorias, mas representavam um modo de existir no mundo.
Nesse contexto, AlUla desempenhou um papel fundamental durante as peregrinações realizadas ao longo da Rota do Incenso. As caravanas que transportavam esses artigos perfumados de locais distantes faziam uma parada em AlUla para descanso, comércio e, posteriormente, continuavam suas peregrinações pela vastidão do deserto.
Eu queria, de alguma forma, recriar a esfera olfativa dessa rota ali no deserto. Esse pensamento me motivou. Como poderia trazer à tona essa esfera olfativa que foi apagada, de alguma forma.

“No dia final da montagem, quando acendemos todos os incensos e aquela fumaça densa dançava ao redor do anel dourado, e a obra começou a perfumar o deserto, foi um momento verdadeiramente mágico. Ouvir as pessoas chegando e sentindo o cheiro à distância, observar a dança da fumaça com o vento… foi tão emocionante que meu corpo parecia entrar em colapso de felicidade e alívio.”
KURA: Você pode nos contar um pouco sobre os bastidores da execução da obra?
KAROLA: Bem, os bastidores da criação de Sfumato foram uma montanha-russa emocional, para dizer o mínimo. Foi, sem dúvida, a obra mais desafiadora da minha carreira até agora. Nunca antes havia me aventurado em uma obra dessa escala, muito menos em um ambiente tão peculiar como um deserto. Trabalhar com cheiros, como já imaginam, traz consigo uma série de desafios únicos. O controle do odor no espaço, por exemplo, é uma das grandes questões que se enfrenta. Tentar “colocar” o cheiro em um local, principalmente em um contexto tão vasto como um deserto, é como tentar capturar o vento.
Nada foi fácil nesse projeto, mas essa é a beleza de trabalhar com cheiros: você precisa abraçar a vulnerabilidade e a imprevisibilidade. Desde a concepção dos incensos até a construção da estrutura, enfrentei enormes desafios. Inicialmente, eu desejava que os incensos fossem muito maiores, mas logo percebi que isso não era viável. O processo de criação dos incensos, sem poder usar antifúngicos devido a restrições ambientais, nos levou a reduzir gradualmente o tamanho até chegarmos a uma versão que não mofasse. Além disso, lidar com questões aduaneiras, como determinar quais matérias-primas poderiam ser exportadas do Brasil para a Arábia Saudita, foi uma verdadeira saga de testes e formulações.
Quanto à estrutura, inicialmente, desejava direcionar a fumaça para baixo, mas logo percebemos que subestimamos o impacto da temperatura no deserto. A variação de temperatura, de 3 a 25 °C, teve um efeito significativo no comportamento da fumaça. Ela cria uma pressão negativa que faz com que a fumaça volte com força para sua fonte de calor. Fizemos diversos ajustes e algumas mudanças de planos. No dia final da montagem, quando acendemos todos os incensos e aquela fumaça densa dançava ao redor do anel dourado, e a obra começou a perfumar o deserto, foi um momento verdadeiramente mágico. Ouvir as pessoas chegando e sentindo o cheiro à distância, observar a dança da fumaça com o vento… foi tão emocionante que meu corpo parecia entrar em colapso de felicidade e alívio. E, lágrimas vieram aos meus olhos, não apenas aos meus, mas também aos de outras pessoas da equipe. Foi uma montanha-russa emocional do começo ao fim.
KURA: Quais aspectos das suas criações artísticas você destacaria? Em outras palavras, quais reflexões e/ou temas você considera pontos de partida para o seu trabalho?
KAROLA: Eu exploro muito os conceitos de presença/ausência e memória/esquecimento em meus trabalhos. Acredito que esses binômios são fundamentais para compreender os trabalhos olfativos.
O cheiro, enquanto presente, também está ausente, pois não possui uma corporalidade física tradicional. Ao contrário de objetos tangíveis, o cheiro não tem uma forma física que possa ser medida ou tocada. É uma percepção olfativa, uma interpretação do cérebro em resposta a moléculas voláteis detectadas pelo sistema olfativo. Assim, embora o cheiro seja uma experiência real e muitas vezes poderosa, ele não possui uma presença física tangível da mesma forma que um objeto sólido.
No que diz respeito à Memória/Esquecimento, é importante ressaltar que o olfato está diretamente ligado ao nosso sistema límbico, responsável pelo desencadeamento de emoções e memórias. Portanto, ao ser percebido, pode criar novas memórias ou despertar lembranças adormecidas, esquecidas ao longo do tempo.
No entanto, o conceito de memória e esquecimento que tenho explorado recentemente vai além da forma como nosso corpo lida com um cheiro. A ideia de recriar esferas olfativas que foram apagadas da história me intriga profundamente. Essas esferas são apagadas, seja pelo simples fato de não ser possível preservar um cheiro ou, por vezes, por questões de apagamento histórico.
Mas, em resumo, meus trabalhos podem ter origem em diversas fontes. Às vezes, observo por um viés histórico/cultural de um determinado lugar. Outras vezes, uma frase me inspira e começo a elaborar sobre ela. Em algumas situações, é uma experiência pessoal que estou vivenciando que me impulsiona. No entanto, todos esses pontos de partida estão profundamente ligados à minha paixão e quase obsessão por uma ideia, comprometendo-me a levá-la até o fim.


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