Resíduos      

​Li essa frase que para mim fez todo sentido: filósofos como inspiradores e fiscais! Vemos que muitos artistas se inspiram no mundo teórico para constituir passos na visualidade e amplificar “a imaginária captura” da arte, embora de quebra,fortaleçam e legitimem seus trabalhos com constructos já “conhecidos”, são destes resíduos que nosso texto trata hoje. 

A inspiração logo aparece quando conversamos com um artista antenado. E a fiscalização? Ela geralmente aparece na crítica, pode vigorar como texto curatorial ouestar disseminada nas conversas do vernissage. Entre um copo e outro, descartável ou não, todas as preocupações com os materiais que não são ou não reciclados aparecem…

https://www.thebroad.org/art/anselm-kiefer/nürnberg

​Os resíduos são de que natureza? Essas rebarbas que sobram costumamincomodar porque aprende-se a arredondar como se a arte fosse um produto. Analogamente ao arroz soltinho que é correto, mas não é o mais gostoso, a arte possui um inacabamento visual e teórico (reticências, linhas de fuga, entre parêntesis) não tão bem aceito para o mercado, que precisa apontar para um lugar ausente para ser potente como visualidade não operável. 

Por falar em alimento, se faz arte também mobilizando esses significantes: lembro-me do sorvete que era político porque era uma representação dos ricos que deveriam ser comidos pelos trabalhadores, do picolé do Opavivará, num dos Arte Rios da vida, ótimo! A comida que compartilha vivências, as cadeiras de praia duplas de listras, as redes da COSMOCOCA… Muitos são os trabalhos que a alteridade ou a outridade aparecem como resíduo da arte.

https://www.inhotim.org.br/item-do-acervo/cosmococa-cc5-hendrix-war/
https://www.premiopipa.com/pag/artistas/opavivara/

Na era do antropoceno, os materiais figuram junto as nossas paletas e muito antes dessa discussão já estavam nas pinturas de Anselm Kiefer, nas decisivas colagens de Braque e Picasso, nos ajuntados e quebrados das esculturas, nas bolinhas como na Yayoi Kusama, entre outros trabalhos de arte contemporânea.

ALINE REIS | 12 março 2024