“Entre o mesmo e o diferente”

​Venho notando que nos últimos anos em vez de usar o termo “obra de arte”, falamos “trabalho de arte” e mais ainda “imagem”. No curso dado por Giselle Beiguelman, disponível no Youtube da editora UBU, intitulado Políticas da imagem: estéticas e olhares do agora, a autora problematiza que estamos saindo de uma era da representação e percepção (fenomenológica) para uma outra órbita teórica e imagética. Não estaríamos mais Diante da imagem,¹ mas num outro lugar, cada vez mais dentro das imagens invisíveis feitas por máquinas para máquinas.

O paradigma moderno estaria superado, então não mais estaríamos lidando com as imagens diante de nós com a materialidade da feitura da imagem como a fotógrafo analógico e seu processo de captura, revelação e produção (como em Blow Up de Antonioni) para estarmos em tempo real capturados pelas câmeras térmicas (dos shoppings, dos aeroportos e pela biometria dos bancos) numa cultura da vigilância.

​O olhar maquínico, os “grandes olhos” que nos monitoram veem com os nossos olhos, a leitura do corpo é feita full time e nossos corpos são o lugar da batalha no mundo contemporâneo. Estamos dentro da imagem e não fora dela, portanto e vez de diante da imagem, estamos dentro dela escaneados. As imagens digitais nos olham, são o que podemos chamar de per se digitais.

​São os nossos desejos um novo alvo do capitalismo? A vigilância teria como escopo o controle dos públicos-alvo? Sim, assim como na imagem do pós-cinema estaríamos em rede e no coletivo: me vejo enquanto me olho.

​Uma outra fala que me chamou a atenção: “O genocídio era apagado pela arquitetura, agora ele é apagado pela imagem.” Significa dizer que no invólucro da bolha tecnológica alimenta a vigilância, inclusive com mais repertório imagético como forma de reforçar uma única linguagem da cultura visual contemporânea. Mas o que seria? O esquecimento, a ausência ou a tentativa de colar o sentido à percepção ao próprio real? Seguimos pensando e observando.

ALINE REIS | 28 setembro 2021

¹ Título do livro de Didi-Huberman.