
Ponte
O mundo é o conteúdo dos trabalhos de arte contemporânea, nem que seja no viés subjetivante do artista com o seu léxico próprio. A ponte entre a realidade e a arte como mimeses pode ser reativada se há um ponto de inflexão a ser abordado. Qualquer material, forma, concepção podem funcionar na poética do artista, caso ele esteja apostando naquele caminho.
Venho lendo autores que fazem a ponte através da academia porque estão nela. O suprassumo que guia o fio teórico é dado pelos pares e ajusta-se os trabalhos aos conceitos legitimados sem que saibam tais autores como é a cabeça do artista (olha que tem de tudo, todos os tipos, nas mais variadas frequências do rádio).

Admitindo que o artista beba nas próprias referências citadas, nunca nunca nunca o masuear é dessa forma doutrinária. Se é experiente e manipula signos ou ainda sonha manipulá-los, torcendo-os, elaborando-os de outra forma, dá para compreendê-los, caso não são engolidos muitas vezes pelo texto curatorial ou até pelo próprio curador. A palavra experiência aqui significa anos de janela-estrada, por certo hámaturidade em lidar com os desdobramentos da própria materialidade do trabalho desenvolvido.
Não menosprezem os artistas iniciantes ou os apaixonados demais para ver qualquer coisa. A lida na batalha da vida enterra sonhos e potências. A categoria outrono circuito de arte brasileira é de cortar todas as chances, descartam uns em detrimento de outros, isso professor, artista tutor, coach, diretor de instituição e por aí vai.
A longa lista de esperas por um tempo certo no momento certo para acontecer, também tem um tempo para acontecer. Há um chapéu histórico para acontecer, ninguém está em seu auge o tempo todo e ainda tem a morte que solapa e leva. Isso significa que labutar pontes com a história da arte, com as referências e na própria poética, não é para sempre!
ALINE REIS | 27 fevereiro 2024



