Autorreferencialidade      

Parafraseando Gustav Klimt, o “trabalho de arte” é uma linha em torno dos pensamentos do artista. Esse fechar redondo em si mesmo traz concentricamente o tempo histórico, os ditames da ciência, as amarras existenciais de uma época árida e muito mais, daí dispô-los no espaço expositivo leva o curador a criar uma expografia de relações, junta-se formas para alcançar o espaço na lida com o tempo. 

Isso quando não são serialidades já pensadas pelo próprio artista. Quando há falta ela também se manifesta como presença, também dialoga com as linhas retas, com a imagem, criando narrativa, sintomas, caracóis interpretativos, no qual a principal inflexão provém da nuvem carregada pelos eixos de poder. Cada vez mais convencida como os ventos da academia americana beberam nos filósofos franceses e os devolveram para serem consumidos em todo o mundo, inclusive na França.

Os vestígios dessa deglutição se veem em todos os lugares, se ouve, influenciam mesmo àqueles que não sabem nada a respeito. Essa “globalização” das ideias dominantes engordam os cofres do mercado de arte, que aparentemente parecem “burros”, mas não são. A linha de frente do capitalismo é cooptar a arte moderna e mesmo a arte contemporânea, num catálogo de produtos que esvaziam o “espírito da época” para ser simplesmente cópia da cópia, vulgarização, desmaterialização, desencarnado.

​Os artistas atentos às mitigações solapam as estratégias “produzindo”, ou sejam, já levam para dentro do que fazem tais apreensões, porque não se descarta essas coisas, como a água do mar cheia de microplástico. A própria ação de passar na peneira não é contemporânea. Tudo junto já caldo quanto faz mal à saúde, aí já é outra situação a ser considerada.

Há visualidades que são como refrescos para tais posicionamentos e outras que mais nos chafurdam nesse mundo. Escolhas ou sem escolhas oscilamos no pensamento, não no mundo.

ALINE REIS | 21 fevereiro 2024