
Falta de moradia
Como um dos vieses da arte é político, o artista pode tratar sobre qualquer aspecto social como temática explícita ou de fundo, amarrando outras questões, aliando a visualidade ao discurso. Um objeto tem o poder de invocar uma miríade de conexões que o próprio produtor não domina. É certo que desde Beuys (e Duchamp) há sempre um elemento de elaboração filosófica na construção da poética do artista.
Nessa imbricação do socius com uma relação de proximidade com a filosofia há a arquitetura, os corpos e as ausências, daí podem sair registros de discursos totalmente diferentes, desde a ocorrência de uma sociologia que discute a questão econômica primordialmente, como forma de atrelar os grandes períodos históricos à percepção das coletividades (como W. Benjamin) que incidiriam já no aspecto do habitar\ser como modo de existência.

Há pelo artista uma manipulação do signo, uma apropriação prévia de todo um léxico já sedimentado de significados que estão ali quando escolhemos a luva. Um elemento usado por um trabalhador, eletricista para manipular algo que é perigoso e precisa ser isolado da pele e do corpo. A fabricação do objeto já leva em conta o material de isolamento, mas quando ele é “elevado” à categoria de arte duchampianamente, adquire um posicionamento que nem a palavra precisa dizer.
Ele como caderno a ser manipulado já atinge outro status, assim como o fotógrafo que posiciona o objeto corpos em arquiteturas das mais diversas como: casa de concerto, praças, museus etc. A relação imediata de não mais os ver, se casa com o deslocamento de que todos os corpos são iguais e não mais as mulheres estarão nuas no quadro como em outros tempos artísticos.
Desenhar com corpos, posicioná-los, para que a foto saia exatamente como imaginado pelo artista, casa perfeitamente com a precisão das luvas.

Luvas
Márcio José Nogueira de Almeida (Recife/Pernambuco/Brazil –
1963) Multimídia, iniciou sua carreira na década de 1980 e, desde então, desenvolve seu trabalho utilizando variados suportes: pinturas, desenhos, gravuras, objetos, fotografias, vídeos, instalações, inclusive algumas destinadas a intervenções urbanas. Seu olhar e interesse concentram-se em temas do comportamento humano ligados à noção de deslocamento, transitoriedade e pertencimento. Direciona seu foco, também,
para questões de geopolítica e de ocupação do espaço urbano.
ALINE REIS | 6 fevereiro 2024


