
l´imaginaire
Hoje vou falar do meu trabalho de arte! Quando incorporo a palavra l´imaginaireem minhas colagens é no sentido de apontar para o processo que me constitui. Sempre quis trazer a palavra como materialidade e o campo escolhido dentro das minhas leiturasaponta nessa direção, portanto antes de dizer o que é, explicitando de que ponto estou para tratar o conceito sartriano, a palavra em sua materialidade habita o espaço da arte, o que por si só não é nada demais, dada a tradição que se instaura com Duchamp.

Vocês já repararam na ópera como as pessoas tossem? Demais a ópera, demais aquilo tudo, daí é preciso tossir, atrapalhando, ficando nervoso, aparecendo… Poderíamos como Cage fazer um coro das tosses que atrapalham, assim era quando dava uma aula incrível, tinha alguns alunos que precisavam arrastar as cadeiras e tossir, incomodados com as palavras.

Uma amiga artista me disse: – Por que não escreve uma palavra que não exista, para que o sentido semântico não seja perseguido e a materialidade se dê?Analogamente, não gosto de escutar a peça sendo executada num estúdio, quero ouvi-lanum grande concerto em silêncio, habitando o lugar junto aos outros espectadores ouvintes e espero que eles possam suspender tudo, inclusive as tosses, na hora da apresentação.
O desafio do silêncio não é nada perto do atordoamento da suspensão do ar e do atordoamento. Existe. Falaram que quando Maria Rita cantou pela primeira vez para uma plateia brasileira (Canecão?) não houve nenhum suspiro, todos escutam Elis, de novo, era um milagre. Os artistas são ambiciosos em seus investimentos, então “exigir” do participante uma outra postura é um dos meios de começar a trabalhar.
Se um signo linguístico está ali presente, é sinal de que há intencionalidade para fazê-lo produzir ou como um ruído ou como um caminho interpretativo.
ALINE REIS | 5 novembro 2023


