Quando a abstração não está na forma

Pressionar uma matéria para que nela contenha todo o léxico imaginante onde circunda as questões que a constituem, dando “liga” ao imaginário, envolve uma parte importante do processo: a inserção do artista no mundo. Nunca é tão fácil a instrumental razão fazer as conexões para solucionar a visualidade, o trabalho de arte em sua extensão: matéria, visualidade, título e continuação na imaginativa apreensão do espectador atravessam longas distâncias. Esse ajuntamento tardio ou mesmo na tentativa de ser logo sintetizado, não cansa de vir como o mar em ondas desiguais.

Para além da geometria alcançar um novo alvo preenchendo o espaço na sua totalidade, daí parecer que cada peça habita a galeria como única. Isto porque nas mãos a transcendência da arte, o forte suspiro proporciona o manuseio do metal. O peso se dissolve quando a peça alcança um lugar de relação com o espaço. Nenhuma arte é de fácil definição, porque naturaliza movimento, entorses que desmazelam nossos mais queridos sonhos.

À força de mexer as obras pelo caminho de exposição numa galeria ateliê, o que mais se mexe são as conexões do artista Rogério Botelho que individualiza a totalidade de seus caminhos, porque ada coisa pode ser recuperada em seu aspecto geometrizante e identificada com um outro mesmo, visto produzir diferença ser um passo a mais…

O olhar do outro baliza a visualidade e a crítica encontra as palavras “certas?” para descrever e julgar o que foi feito de um tempo que pode ser tanto um átimo como uma longa estrada de construções até uma formulação final. O nome do ateliê Espaço Abstrato, na Fábrica Bhering, explicita a intenção do artista. A luta amorosa com a matéria da arte produz uma única sentença: o artista transforma, entrega e relaciona o imaginário à multiplicidade.

ALINE REIS | 28 novembro 2023