
Silêncio
A inspiração longe de ser original é “pescada” em vários campos. Aprendemos vendo o que não foi feito no trabalho dos outros artistas ou mesmo nas curadorias comseus “erros”, “silêncios”, “omissões”. É numa falta ou ausência que o crítico se manifesta compreendendo que o que não foi dito e a crítica enxerga a “ocasião” para fazer a sua intervenção.


Sartre discute em sua obra “Que é Literatura?” esses pontos nos vários silêncios que encontra nas frases dos autores. A narrativa quando se cala, por si só grita o não envolvimento. É claro que o filósofo se ancora na literatura e é nela que encontra um ardor íntimo para uma luta engajada.
A pintura, pelo contrário, não daria ao pintor a possibilidade de um engajamento, mesmo que a personagem seja revolucionária. Pensemos que Sartre estava olhando a arte moderna com os olhos de um literato. Nas premissas contemporâneas, não existe personagem, somente tinta na superfície de sei lá o quê escolhido pelo artista.
A forma de exibição também conta como narrativa e a expectativa por parte do espectador integrante no processo de “codificação” mostra-se como participação ativa. A tinta que “esboça” um homem com determinadas características, sem rosto, por ex., é muito mais um discurso político que plasma um posicionamento do que engaja.
Talvez possamos trabalhar com a hipótese que seria sim um engajamento, nunca pensado pelo autor filósofo em sua redoma, mas precisamos levar em conta que enquanto a arte moderna estava “em cima” do objeto, a arte contemporânea acentua o espaço de participação da obra na exibição do site especif, na colocação do ateliê ou em outro lugar.
Remeter à representatividade, talvez sim seja um engajamento possível, não visto no século XX. Refazer o caminho de um outro século é como um crochê, se errar volta-se, desfaz tudo e começa, assim como nesse texto.
ALINE REIS | 19 março 2024


