A POESIA DESCALÇA COMO A CHUVA

Tive a felicidade de fazer a curadoria da artista Regina Pouchain no Espaço Cultural Municipal Sergio Porto, em novembro de 2023. Segue o texto curatorial:

​“Para além de todos os começos possíveis de um texto curatorial, que dariam já de “primeira” a pegada ou o caminho interpretativo a ser seguido, interditando nossa alegria de escorregar nesse terreno molhado e arredio, peço ao espectador que não tente se “segurar” em nenhuma metáfora ou memória, mesmo em imagens como aquelas que nos ficam da infância: correr descalço na chuva. 

​Qualquer junção e associação que priorize imagem com a linguagem, entre outros, já são marcas d’água de vertentes teóricas que nos induzem a pensar A ou B. No prelo do pensamento as remissões aos autores conduzem à essas formulações. A introdução é uma maquinação de um tempo esgotado, mas que deve ser explicitado para que não enviese nossa capacidade de estar livre no momento da entrada no trabalho de Regina Pouchain.

​A artista me pede que fale sobre a diferença entre poesia e poema, até porque ela precisa mostrá-lo, enquanto eu preciso amarrá-lo em teias conceituais, que longe de serem descartáveis e supérfluas, são marcos espaciais para que se possa entender do que realmente se trata e se concebe em seu trabalho de arte. Deixemos o empirismo de lado, fazer por fazer, labutar no automatismo, se a artista puxa o fio do construtivismo russo ou da filosofia que atravessa, seus poemas visuais, é desse lugar que precisamos tratar.

​O fato de nós duas possuirmos uma mesma trilha de conhecimentos, arte/ filosofia, fez com que nossos diálogos se tornassem pontos de inflexão na determinação do que iríamos “aprontar” nessa exposição. O longo currículo de approaches rebate como espelhos em muitas direções. Faz-se poesia com tudo, nos poemas visuais, matemáticos, anfipoemas e em livros-de-artista, enquanto poemas podem ser feitos de imagens ou objetos, seguindo o rastro do poema processo.

A visualidade exposta na exposição traz todas as vielas, bifurcações e vértices, percorridos. Flui em seu processo de trabalho, a enorme capacidade de se colocar disposta ao “esbarrar” nas discussões da arte e da filosofia no século XXI, que antes de serem datadas, são mais do que nunca vivas como bactérias a nos roer de curiosidade, afeto e treta teórica”.

ALINE REIS | 19 dezembro 2023