
Alteridade na Arte Contemporânea
“Apostar no outro” é tudo o que queremos que aconteça conosco. Muitas vezes acontece por critérios rigorosos de genialidade e de talento, como Cildo Meirelles, unanimidade. Outros, desconfio que por adesão ao paradigma dominante, sejam logo notados e entrem no peão do circuito. O que está em jogo nessa conversa para além da legitimidade e da conquista (inclusive financeira) é o reconhecimento. Encosta nele, o amor. Não tenho dúvida.

Se sentir querido e ser “comprado” é selar não a “criatividade” do outro como muitos leigos pensam, mas a liberdade que vem como gesto na criação do trabalho de arte. Aquilo que você ama e enxerga no outro, a tão afamada diferença: um desdobramento no espaço, o enquadramento certo na fotografia, a costura das palavras no pano, o vídeo performance.
O artista livre “rabisca” (Cy Twombly), usa seu corpo (Marina Abramović), se pendura como carne no caminhão do frigorífico (Berna Reale), rasga a tela (Lucio Fontana), eu aqui poderia elencar mil ações de diferença na história da arte, para mostrar como o artista “contribuiu”, mas acima de tudo como ele usa a sua liberdade de estar no mundo para dialogar com as coisas.

O embate da carne com as coisas do mundo foi amplamente descrito por Merleau-Ponty, usado nas curadorias dos anos noventa do século passado e por incrível que pareça, ainda tem seu charme e está no imaginário de muitos artistas. Claro que estou falando dos que não são nem celebrados e nem conhecidos, praticamente esnobados. Para eles (ingênuos, naives, toscos, mexem com artesanato, são colegiais), a emblemática “história” (lê-se mercado e historiadores) os colocará sempre como anacrônicos e os seus trabalhos estarão para fora desse jogo amoroso.
É certo que o amor não é cego, nem o olhar de quem reconhece, portanto fica-se nos pares. Uma pena.
ALINE REIS | 12 dezembro 2023


