Endotélio

Muitos acham que quando uma exposição acabou, não adianta mais falar sobre ela, como se a recepção de um espaço expográfico ou o impacto dos trabalhos fossem uma página virada no calendário da vida. Essa matéria descartável que faz de tudo notícia velha, jornal que embala peixes na feira do dia seguinte, serve bem a imagem que herdamos de um outro século. Não que o descarte não figure em nossas redes sociais e o ontem não pareça uma outra semana.

Esse deslocamento temporal já incorporado nas nossas peles constitui o que a ideologia dominante abomina: a premência da história. Há quem diga que um grande teórico do sistema da arte cataloga todas as exposições, então prefiro acreditar que sim, que um lastro ficou de toda essa trabalheira para artistas, curadores, montadores, iluminadores, produtores e participantes, quase sempre no curto 1 mês (se é que é) expositivo.

Revestindo essa discussão, hoje queria tratar da exposição Endotélio, individual da artista Dulce Lysyj, ocorrida em outubro de 2023, no Corredor Cultural do Ministério Público, com curadoria de Cota Azevedo e Amanda Leite.

Nos vários trabalhos de arte expostos transparece a fina camada visual que a artista, como médica nefrologista, se depara. Ressoa na forma como Dulce “mexe” com o mundo, um diálogo com a beleza da finitude e dos temas atuais dos quais precisamos agir. Mesclando no jogo de remessas – recorte, bordado, observação dos instrumentos protagonistas e sutura – sem que a ausência do sangue, do escarro ou dos vestígios do corpo seja impeditivo, ela faz deslocar os significados e propõe novos comportamentos.

Se um dos caminhos é transcender através da arte contemporânea, toda essa vivificação, proporciona uma experiência estética muito próxima ao acolhimento, tão necessário ao estar vivo e pronto para habitar todo e qualquer espaço de uma forma autêntica.

ALINE REIS | 14 novembro 2023