Misturado, tudo junto, tamo junto, separados

André Breton

Como no guache de decalcomania sobre papel de 1957, assinado à mão com as iniciais no verso, tamanho do papel 3⅝” x 8¾” (9,3 x 22 cm.), da coleção de André Breton, em Paris, misturam-se vários lados da questão que queiramos discutir ou dar uma aula. O embaralhamento das fronteiras entre os que agem e os que olham, entre os indivíduos e os membros de um corpo coletivo formam o discurso e a visualidade.

​Discernir as camadas e as direções por vezes antagônicas e inconciliáveis é o grande barato da contemporaneidade. Sem falar que pareceestar misturado num primeiro momento o que induz a pensar que tudo está junto. Não, nem “tamo junto” nem separados, até porque quem diz isso precisamente opera em separado com o outro.

​O horizonte conceitual tem se deslocado da ética para o estético mas isso não quer dizer que o outro apareça em sua inteireza, aliás qualquer tentativa de absoluto nessa onda da imanência parece ser vaga, improvável, caindo no espaço “vazio”.

​Operar no acaso fazendo surgir o que há como forma de dar vazão as probabilidades é uma ação ainda recorrente. Pintar a ordem parece jogar para trás e ser anacrônico. Ninguém gosta. Os artistas que supervisionam e acompanham “novos” artistas no métier que o digam.

“Não há forma privilegiada como não há ponto de partida privilegiado. Há sempre pontos de partida, cruzamentos e nós que nos permitem aprender algo novo caso recusemos, em primeiro lugar, a distância radical; em segundo, a distribuição dos papéis; em terceiro, as fronteiras entre os territórios. Não temos de transformar os espectadores em atores e os ignorantes em intelectuais. Temos de reconhecer o saber em ação no ignorante e a atividade própria ao espectador. Todo espectador é já ator de sua história; todo ator, todo homem de ação, espectador da mesma história.” (Rancière. “O espectador emancipado”).

ALINE REIS | 22 fevereiro 2022