“Isso é arte no intenso agora?”

​As aspas devem ser definitivas não só porque assinalam que foram ditas por alguém como evidenciam um tempo no qual a linguagem precisa ser posta sempre em cheque. Numa simples pergunta podemos perceber os vestígios de história envolvidos na formulação da frase interrogativa.

Vamos aos vestígios… Joseph Kosuth propunha que “a arte fosse feita de conceitos, não de matéria”. Os artistas proporiam ideias sobre arte, abandonando o “fazer” arte. Juntamos a isso, a “transferência simbólica” que Belting cita sobre o desdobramento feito por Duchamp, no qual o objeto é ou não arte, portanto não é algo sensível, mas uma ideia, então temos o foco na recepção do objeto de arte, daí “trabalho de arte” foi um pulo.

O estabelecimento de uma tautologia que pensa ser apenas linguística se deu também na captura do fazer. Para exemplificar tal nexo histórico ocorrido junta-se a ideia de um “intenso agora” que surge apegado às interpretações hermenêuticas (Lutero, Turner).

Turner

A arqueologia dos conceitos deve ser cavada num pool de escritos sobre arte que vão sedimentando visualidades, apreensões, posicionamentos. Nem mesmo as curadorias não-europeias escapam dessas démarches. Isso porque o caminho de constituição da arte contemporânea segue um rio comum de ajeitamentos e margens.

​Em algum ponto desse rio a margem represou, aglutinou num outro tempo e “ali se fez outro lugar”, não um continum que fizesse a arte moderna tornar-se contemporânea, nem uma simples ruptura, mas um novo “bolsão” que guardou algumas especificações embora tenha redimensionado os interesses e as intenções. 

​Como os elos dos discursos ainda se mantiveram amarrados em cordas e fios metafísicos para se desfazer deles foi um longo caminho. Nietzsche que o diga, embora hoje observar o circuito de arte contemporânea brasileiro parece ser uma aula de Gramsci.

ALINE REIS | 9 novembro 2021

¹ Kosuth sentencia: “O único assunto de cem anos de arte moderna é a consciência que a arte tem dela mesma, a arte preocupada com seus próprios processos e meios, com sua própria identidade e especificidade”.